quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enem, Três Fábulas Modernas

Acho desnecessário, mas em tempos de politicamente correto preciso lembrar: todos os nomes, personagens e situações desse post são fictícios e criados por este que vos escreve. Em caso do prezado leitor encontrar semelhanças palpáveis com a realidade, aconselho fortemente uma reavaliação de conduta e/ou de companhias.

Ou não. Lembre-se, esse texto é uma fábula, escrita por um devaneiador ocioso que ainda tem espinhas na cara e não tem a menor pretensão de salvar o mundo, conscientizar o povo ou coisa do tipo.

...

O pobre diabo revirava-se na cama do apartamento vazio. Pobre diabo é, na verdade, maneira de dizer. Um sujeito que à meia noite prepara um bule de café com certeza está procurando sarna pra se coçar. Alta madrugada, o infeliz já agitado de tanta cafeína se agita ainda mais na ânsia de querer dormir. Resolve levantar, dá um passeio pela casa, vai até a varanda, precisa tomar um ar fresco. Ar fresco, aliás, é um mimo trazido pela madrugada paulista - e ninguém mais.

Uma coisa leva a outra, a agitação o faz pensar um monte de besteiras. Começa a lembrar sua vida ordinária, de trás pra frente. Beco sem saída, divórcio, falência iminente, isolamento, pretensão, tumulto no casamento, exageros, vaidade, fraqueza, tudo isso depois que uma ex de adolescência tinha se suicidado. Ah, Laurinha, se você ainda estivesse aqui tudo seria mais fácil. Por que nosso romance desandou? Por que deixamos de lado aquele amor perfeito? Quando começou a pensar que tinha matado a pobre Laura de desgosto, afastou-a, se pôs a pensar em outra coisa. Não queria entrar em surto de novo. Tentou serenizar-se e chegou à conclusão de que só sendo criança de novo iria ser feliz.

- rrgnnnhhgg... Alô?
- Oi, é do açougue?
- rnnmmm... Não.
- Então por que eu estou falando com uma vaca?

Desligou e riu forçosamente. Forçou uns quarenta segundos até sentir que o trote do açougue perdeu completamente a graça que nunca teve. Precisaria aloprar mais para satisfazer sua criancice. Como moleque, resolveu tentar extrapolar seus limites só pra provar. Esqueceu conseqüências, mandou sua maturidade ao raio que o parta e foi brincar com coisa séria. Raivinha do mundo. Aproveitou que a mãe não estava olhando e discou. Dois tu-tu-tu depois, alguém atende com o ar ocupado que só os adultos têm e ele não queria ter.

- J.J. Blóide*, editor chefe, boa noite.

Que Deus conserve sempre a ignorância nas crianças e tire a criancice dos ignorantes...

...

O pobre diabo (esse sim, merece o título) estava emputecido - perdoem-me, mas não há outra palavra. Saiu pelas ruas esbravejando, amaldiçoando, xingando, tudo junto. Às vezes chegava até a dar socos no ar, tamanha era sua raiva. Dentre tantos atos secretos pra revogar, revogaram logo aquele que lhe dava o emprego. Não via sentido em pegá-lo para bode expiatório, tampouco via sentido quando a imprensa resolveu jogar merda no ventilador. Todo seu meticuloso plano de subir na vida fora por água abaixo. Pior, agora sentia um vazio dentro de si. Não podia mais entrar nos prédios do planalto central com aquele ar de falsa humildade, não podia mais influenciar ninguém, não podia mais pedir favor a ninguém. Ou podia?

- Alô, Oliveira. Lembra de mim?
- Padilha! Claro que sim! Estava até pensando em te ligar mesmo, rapaz. É sobre aquele lance que você me adiantou, lembra? Muito obrigado. Mesmo. Eu não poderia sem a sua ajuda. Você foi um grande rapaz, conhece as pessoas certas, hein. Quero te retribuir, mas nem sei como.
- Que isso, não há de que.
- Fiquei sabendo o que fizeram contigo. Achei uma puta injustiça isso. Logo você? Sacanagem. Mas não fique assim, logo aparece algo e você volta. Olha...

Nem quis ouvir, nem quis voltar. Estava muito furioso mesmo. Raiva, orgulho ferido, ingratidão, injustiça, falsidade, tudo o atingia e se misturava dentro dele. O próprio Oliveira estava sendo um porco falso naquele exato momento.

- Você gostou mesmo do que eu fiz, Oliveira?
- Ora, se gostei!
- Então acho que sei como você pode me retribuir. O meu filho sonha com a universidade, sabe...

Oliveira lhe repassou as provas do vestibular, na íntegra e na surdina. Afinal, achou o pedido do Padilha uma mixaria e nem se incomodou em retribuir com essa esmola. Na verdade, nem entendeu o pedido, poderia colocá-lo na sala de aula num estalo, pra que vestibular?

Três dias depois, entendeu. Soube que Padilha ligou para o maior jornal do país pedindo dinheiro ou então iria faltar ventilador pra tanta merda.

...

Barbixa era quase um mito. Simpático, inteligente, charmoso, querido por todos na faculdade, brilhante aluno, pegador invejável. Era presidente do grêmio estudantil há anos e por isso tinha certos privilégios, como a chave do diretório acadêmico, cortesias etílicas no barzinho do campus e uma certa "imunidade administrativa", cedidas a ele com grande prazer. Só tinha um único defeito, coitado, sua vaidade freqüentemente lhe subia à cabeça. Conta-se que, certa noite, quis impressionar algumas calourinhas e, para isso, organizou, com a ajuda de um colega, uma "festinha" particular para elas no diretório acadêmico durante a noite.

Lá pelas tantas, depois de muito álcool e alguma maconha, o ego de Barbixa estava à mil.

- ...e eu vou provar pra vocês como o Brasil, enquanto nação, não tem soberania nem sobre seu próprio sistema! São pretensiosos os que dizem que pensam com a cabeça. O calor tropical, resultado das irradiações cósmicas racionais, não pode ser controlado pelos seres terrestres! Eu vou começar a construir uma revolução aqui, agora. Basta ligar pros vermes da mídia controladora fazendo denúncias vazias de uma suposta fraude e ameaçando uma vaga extorsão. A classe média submissa vai se apavorar. De quebra, a burguesia vai atrasar seus planos de lavagem cerebral em massa.

Aí ligou prum jornal de grande circulação e lançou a revolução mais medíocre de todos os tempos. Não me atrevo a dizer que foi de todo infrutífera: a classe média se apavorou, a "burguesia" atrasou levemente seus planos e as calourinhas, impressionadíssimas e bêbadas, realizaram todos os desejos de Barbixa e seu colega naquela noite.

Que Deus perdoe todos aqueles que se impressionam por qualquer merda e todos aqueles que fazem qualquer merda para impressionar.

...

* Personagem de Arnaldo Branco.

2 comentários:

  1. Daqui a alguns anos o Pedro estará escrevendo a "Coluna do Prata" em algum jornal comunista que ele fundará.

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  2. Caraca,rapaz! Curti demais esse teu post. Não precisamos ir muito longe pra reconhecer um Barbixa hoje em dia. Estão aí,em toda parte nos cercando,até msm nos ajudando, quem sabe.
    Pessoas ligadas ao seu próprio ego apenas mantêm uma aparência boa,pq por dentro são mais podres do que qualquer merda!

    É isso aí,aquele abraço!

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