Aconteceu no entardecer, quando eu esperava um ônibus na rua do Riachuelo. Como minha camisa tinha uma estampa do Seu Madruga, um hippie de dreads e caminhada mansa atravessa a rua de braços pro alto, num cumprimento bastante efusivo.
- Seeeeeeumadruuugaaaaaa!!!
- Coéééééééééé! - e braços pra cima. Fazer o quê? Eu respondo efusividade com efusividade. Será que essa palavra existe mesmo?
- Aíííí se liga só no artesanato do hippie aí dá uma forcinha brother saca só o trabalho...
E já foi botando o mostruário na minha mão. Era um cano envolto num pano, cheio de pulseiras penduradas. As pulseiras eram bonitas mesmo, todas trabalhadas em palha, conchas e contas coloridas.
- Essa palha aí eu colhi lá na Costa do Marfim. Saca, Costa do Marfim?
- África, né, bicho?
- Ééééé... Seu Madruga saca das parada heh
- Cara, você viaja um bocado então, né? Foi na África só pra pegar palha...
- Sóó... eu viajo, bicho. E não peguei só palha não! Essas conchas são de lá também.
- Irado, hein...
- Ih, olha lá quem vem chegando! Á lá!, é o meu amigo Calvin Klein, grande estilista!
E apontou pra rua, de onde vinha outro hippie de dreads, só que mais alto e magricelo, atravessando. Cigarro na mão e nenhum mostruário de artesanatos pendurado, só uma mochila e alguma sujeira.
- Caraca, Calvin Klein em pessoa! - exclamei, apertando sua mão.
- É, é
- E aí, Madruga? Escolhe uma parada aê.
- Quanto queres na pulseira?
- É três, mas faço duas por cinco pra você. Aí tu fica com uma e leva outra pro teu amor.
Como eu não tinha amor nenhum pra presentear e realmente vi bondade no coração daqueles hippies, levei uma pulseira por quatro reais. O fato de eu só ter notas de dois no bolso também ajudou.
- Ôôô valeu velho que Oxalá te abençoe muito obrigado por ajudar o hippie aí valeu.
Aí eles foram embora e o ônibus passou. Fiz sinal e também fui embora.
...
Essa aconteceu de madrugada, num outro dia, também na rua do Riachuelo. Quando voltava pra casa, um rapaz mirrado e mau-encarado se emparelhou comigo e foi logo ameaçando.
- Aí vai passando o aparelho aí que tu perdeu mermão vai passando logo aí porque eu tô carregado, tô carregado e se tu não passá o aparelho eu te dou um tirão tá ligado
- Ih, calminha aí, cara. Vai se acalmando que tu veio assaltar o cara errado. Deixa eu te mostrar ó - e botei os bolsos pra fora - não tem celular não, acabei de voltar de Botafogo, fui assaltado lá, só tenho esses trocados.
Realmente, eu vinha de Botafogo, mas não havia sido assaltado coisíssima nenhuma. Meu dinheiro fora quase todo gasto em cervejas e aipins e o celular estava em lugar estratégico. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.
- Porra, qual foi branquelo? Passa o aparelho aí porra senão eu te dou um tirão na cara cumpádi! Na cara tá ligado!
- Calminha aí, meu chapa. Tô dizendo, só tenho esses trocados, cara. Eh, vamos ficar na paz, esse negócio de dar tirão não tá com nada. Violência não. Chega aí, eu te pago uma cerveja, vamos ficar na paz.
Não sei se foi porque vi que o cara não tinha arma nenhuma, ou se foi a famosa coragem que os bêbados ganham, mas atravessei a rua e pedi duas cervejas no depósito de bebidas. Dei uma lata pra ele, junto com o restante dos trocados que tinha o bolso e, antes mesmo de eu abrir a minha, o meliante frustrado foi embora mamando a dele, extremamente irritado, resmungando contra Deus e o mundo.
Quando o perigo passou, levei a mão ao peito, que estava coçando. Era meu cordão de São Jerônimo Xangô dando bronca.
- Eu tenho que te livrar de cada confusão em que você se mete....
...
Essa outra é do Carnaval. Estava novamente eu no ponto de ônibus quando um sujeito põe sua cabeça para fora do coletivo e despeja quase todo seu conteúdo gástrico no meio-fio. Digo "quase" porque tinha algo mais naquele regurgito que chamou atenção da galera. Se fosse mais um simples pobre coitado cuspindo as entranhas enxarcadas de álcool, tudo bem. É Carnaval, afinal. Mas o sujeito vomitou DE DENTES CERRADOS. Sem sacanagem. Ao terminar sua obra prima, ele reparou nos olhares que atraiu e não se fez de rogado. Engoliu, enxugou a boca na camisa mesmo e pôs-se a explicar:
- A cerveja vai, mas o camarão fica.
O ônibus seguiu seu rumo e eu nunca mais vi o sujeito, mas eu nunca esqueci sua vívida lição. Esse cara simplesmente virou o meu herói.
domingo, 7 de março de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Black is Beautiful
Sabe quando você acorda no meio da noite suando frio, tremendo, se sentindo numa encruzilhada, e passa o dia acompanhado pelos seus demônios? Se isso lhe aconteceu, você foi pego pelo Blues.
Sabe quando você acorda agressivo, querendo tacar fogo em tudo, fazer todas suas angústias explodirem, soltar os demônios? Se isso lhe aconteceu, você foi pego pelo Rock'n Roll.
Sabe quando você está alegremente leve, sem preocupações na cabeça e um sorriso enorme e muito natural no rosto? Se isso lhe aconteceu, você foi pego pelo Samba.
Sabe quando você acorda agressivo, querendo tacar fogo em tudo, fazer todas suas angústias explodirem, soltar os demônios? Se isso lhe aconteceu, você foi pego pelo Rock'n Roll.
Sabe quando você está alegremente leve, sem preocupações na cabeça e um sorriso enorme e muito natural no rosto? Se isso lhe aconteceu, você foi pego pelo Samba.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
The House of the Rising Sun
Eu só sei que estou de férias quando meu relógio biológico descaceta de vez. Começo acordando às três da tarde, hora de almoço para todos, menos eu, claro. Mas o mundo não vai deixar de almoçar às três da tarde só porque um pobre coitado dormiu na hora do café-da-manhã. Por isso, acordo comendo arroz, feijão e bacalhau com pimenta e azeite, não vivo sem. O resto do dia não tem mais nenhuma refeição formal, é só um bando de comida que vou botando pra dentro em intervalos irregulares e intercalando umas cervejas.
Sendo assim, as madrugadas são insones e a barriga fica indecentemente mais redondinha.
...
O dia está clareando e eu ainda nem dormi. É o meu relógio biológico dando sinais de extrema insanidade. E é esse descontrole que faz a ficha cair: estou de férias! Fé-é-rias! Meus horários podem ter a maior bagunça do mundo, mas e daí? É recesso! Café-da-manhã às três da tarde, almoço à meia noite, janta às nove da manhã, uma beleza. Mas quando me dei conta de que eu havia acompanhado três sóis nascentes seguidos fiquei meio preocupado. À despeito da lua, ainda tão bela e branca à espera de algum admirador retardatário, resolvi dividir minha angústia.
- Tô preocupado, meu relógio biológico tá todo sem noção. Dois minutos pras seis e ainda não dormi.
- PQP nem eu!
- Ah, quer saber? A gente que é cool, baby. Olha o espetáculo, e já é o terceiro sol nascente seguido que vejo. E a lua cheia se pondo no céu avermelhado? Que maravilha!
- To com as cortinas fechadas para me convencer que ainda é noite.
- ...
E lá continuei eu, no terraço de casa, cercado de casas por todos os lados, curtindo essa calma que só as manhãs tem. Sabe, eu tinha me esquecido de como as manhãs são tão gostosas. Me fez lembrar da época na qual acordava bem cedo pra pegar o ônibus das 6:05 e ir para o colégio. Nem um minuto a mais, impressionante a diferença: o ônibus das 6:10 pega um puta trânsito na via "expressa" e demora meia hora a mais em relação ao das 6:05. Antes do sol as manhãs são mais gostosas mesmo, esse finzinho de sereno, uns pássaros cantando, outros voando, o céu indeciso em ser claro ou escuro, azul ou vermelho, essa lua se esvaindo aos pouquinhos. Fading seria a expressão mais certa; esvair lembra definhar, desaparecer é termo muito cru. Talvez "virar fumaça" servisse, mas ela não vira nada, a lua continua lá. Indo embora, mas ali ainda, pálida sombra, como um véu ficando cada vez mais fino.
Procurando a expressão mais certa, meus olhos se perdem. Vão encontrar um avião tão longe, mas tão alto que nem dá pra vê-lo. Só sei que é um avião porque deixa uma cauda de nuvem por onde passa, alguma condensação proveniente da combustão propulsora, só os físicos sabem direito, vivem disso afinal. E eu passei a viver da existência daquele voador solitário, tão longe qual nenhum radar nem nenhuma torre de controle alcançaria. Que faria aquele piloto sabendo que está no espaço aéreo não de um país, mas de um rapaz insone? Digo a ele pelo rádio para não se espantar, esse é meu emprego, ser um fiscal dissidente e solitário, e fico esperando o telefonema do ministro da aviação. Ele ligará para saber se está tudo em ordem, se o vôo está sendo tranquilo para seus passageiros, se o avião risca o firmamento com carinho. Prontamente responderei com pompa de guardião dos ares o que consta no boletim: "a aeronave e sua cauda cruzam os céus com a serenidade de uma vaca na Índia. Se localizam às onze horas e rumam para leste. No mais, tudo em ordem, o céu está uma uva". O ministro agradecerá com grandiloquencia "louvado seja por esse serviço de indispensável importância à nação. Não saberia dizer o que seria dos céus sem um distinto cavalheiro de exacerbada responsabilidade e envolvimento com as causas celestes!" ao que responderei "é apenas o meu trabalho".
Ao fim desse devaneio matutino, voltei a mim graças ao astro rei esquentando minha cara. A lua já desaparecera completamente, assim como o dito avião e toda sua longa cauda, e o sereno já todo enxugado pelo sol. A madrugada passou, assim como o amanhecer passou, e o dia começa.
E lá continuei eu, no terraço de casa, cercado de sol por todos os lados, só curtindo essa calma.
02/01/2010
Sendo assim, as madrugadas são insones e a barriga fica indecentemente mais redondinha.
...
O dia está clareando e eu ainda nem dormi. É o meu relógio biológico dando sinais de extrema insanidade. E é esse descontrole que faz a ficha cair: estou de férias! Fé-é-rias! Meus horários podem ter a maior bagunça do mundo, mas e daí? É recesso! Café-da-manhã às três da tarde, almoço à meia noite, janta às nove da manhã, uma beleza. Mas quando me dei conta de que eu havia acompanhado três sóis nascentes seguidos fiquei meio preocupado. À despeito da lua, ainda tão bela e branca à espera de algum admirador retardatário, resolvi dividir minha angústia.
- Tô preocupado, meu relógio biológico tá todo sem noção. Dois minutos pras seis e ainda não dormi.
- PQP nem eu!
- Ah, quer saber? A gente que é cool, baby. Olha o espetáculo, e já é o terceiro sol nascente seguido que vejo. E a lua cheia se pondo no céu avermelhado? Que maravilha!
- To com as cortinas fechadas para me convencer que ainda é noite.
- ...
E lá continuei eu, no terraço de casa, cercado de casas por todos os lados, curtindo essa calma que só as manhãs tem. Sabe, eu tinha me esquecido de como as manhãs são tão gostosas. Me fez lembrar da época na qual acordava bem cedo pra pegar o ônibus das 6:05 e ir para o colégio. Nem um minuto a mais, impressionante a diferença: o ônibus das 6:10 pega um puta trânsito na via "expressa" e demora meia hora a mais em relação ao das 6:05. Antes do sol as manhãs são mais gostosas mesmo, esse finzinho de sereno, uns pássaros cantando, outros voando, o céu indeciso em ser claro ou escuro, azul ou vermelho, essa lua se esvaindo aos pouquinhos. Fading seria a expressão mais certa; esvair lembra definhar, desaparecer é termo muito cru. Talvez "virar fumaça" servisse, mas ela não vira nada, a lua continua lá. Indo embora, mas ali ainda, pálida sombra, como um véu ficando cada vez mais fino.
Procurando a expressão mais certa, meus olhos se perdem. Vão encontrar um avião tão longe, mas tão alto que nem dá pra vê-lo. Só sei que é um avião porque deixa uma cauda de nuvem por onde passa, alguma condensação proveniente da combustão propulsora, só os físicos sabem direito, vivem disso afinal. E eu passei a viver da existência daquele voador solitário, tão longe qual nenhum radar nem nenhuma torre de controle alcançaria. Que faria aquele piloto sabendo que está no espaço aéreo não de um país, mas de um rapaz insone? Digo a ele pelo rádio para não se espantar, esse é meu emprego, ser um fiscal dissidente e solitário, e fico esperando o telefonema do ministro da aviação. Ele ligará para saber se está tudo em ordem, se o vôo está sendo tranquilo para seus passageiros, se o avião risca o firmamento com carinho. Prontamente responderei com pompa de guardião dos ares o que consta no boletim: "a aeronave e sua cauda cruzam os céus com a serenidade de uma vaca na Índia. Se localizam às onze horas e rumam para leste. No mais, tudo em ordem, o céu está uma uva". O ministro agradecerá com grandiloquencia "louvado seja por esse serviço de indispensável importância à nação. Não saberia dizer o que seria dos céus sem um distinto cavalheiro de exacerbada responsabilidade e envolvimento com as causas celestes!" ao que responderei "é apenas o meu trabalho".
Ao fim desse devaneio matutino, voltei a mim graças ao astro rei esquentando minha cara. A lua já desaparecera completamente, assim como o dito avião e toda sua longa cauda, e o sereno já todo enxugado pelo sol. A madrugada passou, assim como o amanhecer passou, e o dia começa.
E lá continuei eu, no terraço de casa, cercado de sol por todos os lados, só curtindo essa calma.
02/01/2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Cuide Bem do Seu Amor
Apesar de jovem, já possuía uma larga experiência em fumo passivo. Além disso, sua infância fora marcada por seis pneumonias, incontáveis bronquites e uma imensa alergia. Graças à sua família e sua vontade de viver, entrou na pré-adolescência há muito curado e sobrevivente, pulmão novinho em folha. Até certo dia, havia fumado onze cigarros inteiros em duas semanas, sem contar umas festas, frequentadas por dois anos, sempre com narguilé aceso aos convidados. Portanto, não era por falta de hábito ou resistência física que o décimo segundo cigarro de sua vida atribulada foi apagado, ainda pela metade, no fundo de um bueiro sob a acusação de sufocar o fumante novato. Tinha algo mais naquela madrugada triste.
Sujeito forte como costumava ser, nunca havia imaginado tornar-se esse tipo de pessoa, para ele, o mais detestável: aquele que tem boa parte de sua satisfação provinda da cerveja, da cachaça e, ultimamente também, do tabaco. O ser humano não nasceu para ser paliativamente feliz. Mas o que se há de fazer quando a felicidade é uma velha conhecida agora distante, uma amiga que partiu por ter sido maltratada? O que se há de fazer quando a própria verdade é desconsiderada em prol de pertencer ao bem estar e alegria geral da nação?
Como voltar no tempo não lhe pareceu uma opção possível, resolveu escolher a outra. Pôs-se a vagar por aí, pálida sombra do passado, de cachaça em cachaça, de beijo e beijo, de música em música, à eterna procura de uma nova versão do velho sentimento. Até hoje está em ronda, homem notívago, endurecido, de poucas palavras, realizando a busca menos com o coração que com os olhos. Olhos de ressaca. Olhos vivos, críticos. Cegos. Gato escaldado tem medo até de comercial de refrigerante.
Sujeito forte como costumava ser, nunca havia imaginado tornar-se esse tipo de pessoa, para ele, o mais detestável: aquele que tem boa parte de sua satisfação provinda da cerveja, da cachaça e, ultimamente também, do tabaco. O ser humano não nasceu para ser paliativamente feliz. Mas o que se há de fazer quando a felicidade é uma velha conhecida agora distante, uma amiga que partiu por ter sido maltratada? O que se há de fazer quando a própria verdade é desconsiderada em prol de pertencer ao bem estar e alegria geral da nação?
Como voltar no tempo não lhe pareceu uma opção possível, resolveu escolher a outra. Pôs-se a vagar por aí, pálida sombra do passado, de cachaça em cachaça, de beijo e beijo, de música em música, à eterna procura de uma nova versão do velho sentimento. Até hoje está em ronda, homem notívago, endurecido, de poucas palavras, realizando a busca menos com o coração que com os olhos. Olhos de ressaca. Olhos vivos, críticos. Cegos. Gato escaldado tem medo até de comercial de refrigerante.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Brasil Mestiço
Se eu tivesse que escolher a música brasileira mais bonita da história, escolheria essa aí.
Brasileira em todas os sentidos, foi composta por Aldir Blanc e João Bosco e imortalizada na voz adorável de Clara Nunes. O arranjo também é sensacional, muito bem sacado, só não consigo descobrir quem fez.
E tem um artigo bem bacana aqui.
Brasileira em todas os sentidos, foi composta por Aldir Blanc e João Bosco e imortalizada na voz adorável de Clara Nunes. O arranjo também é sensacional, muito bem sacado, só não consigo descobrir quem fez.
E tem um artigo bem bacana aqui.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Branda Liberdade
O ano era 2008, a época era o carnaval, estávamos eu e meu companheiro Motorola. Embora comigo havia apenas seis meses, o pequeno conquistara meu coração à primeira vista. Tosco, simples e - o melhor - o mais barato da loja, eu via nele tudo que sempre sonhei num celular: um telefone bronco. Sua pele monocolor de aço siderúrgico deixava claro que o pequeno ogro estava ali com o único intuito de fazer ligações. Com orgulho Graham Bell apreciaria minha compra. Quem não apreciaria ter o privilégio de ouvir a voz dos amigos queridos à qualquer hora, em qualquer alguns lugares pela bagatela de 89 reais?
Aparentemente, alguém naquele carnaval não curtiu. Do alto da varanda da Fundição Progresso, uma mangueira de incêndio foi ligada e apontada para os foliões que acompanhavam um bloco passando por ali. "VAMUREFRESCÁUCALÔMINHAGENTI!", dizia o bombeiro. Pois o celular enfureceu-se com o banho inesperado e pôs-se a vibrar loucamente. Mesmo tirando do vibracall, o danado não parava de tremer. Cheguei a desligar, e mesmo assim ele insistia no seu "Bzzzzzz", àquela altura já irritante. E desesperador. Estragar aparelhos eletrônicos dá um certo pânico. É como machucar um encarcerado e esperar a indignação dos companheiros se transformar num motim. Fiquei com medo do liquidificador por um bom tempo, até tratei de tirá-lo de perto da geladeira, só por precaução.
Pois então, na própria segunda-feira de cinzas, fui na loja e comprei outro igual. O preço subira um bocado (desembolsei 99 reais desta vez), mas a macheza do modelo foi mantida. Durante quase dois anos, o pequeno negro ogro resistiu bravamente a diversas quedas, chuvas, marretadas, incêndios e permaneceu fiel comigo mesmo após alguns assaltos. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.
Por causa de todo esse envolvimento e companheirismo, fico triste ao anunciar que esse último bastião da tecnologia casca-grossa sucumbiu na madrugada de ontem. É, Ele morreu. Vibrou incessantemente até cair da mesa e espatifar-se, fazendo a tela se soltar do resto do aparelho e definitivamente partir desta para melhor. É um daqueles fatalismos tristes, um em um milhão, que só acontecem em horas inusitadas. Ozzy Osbourne bebeu mais vodka do que toda a população da Rússia junta, mais drogas que cinco Woodstocks juntos, mas nunca correu risco de morte até cair de quadriciclo. Chato, né?

Por detrás dessa aparência brucutu há um bom coração.
Mas logo me alegro, quando penso que terei uma nova vida pela frente. Não terei a mínima pressa em comprar outro novo, quero curtir novamente a sensação de estar sem celular. Depois conto para vocês como é. Beijosmeliga. Ou não.
Aparentemente, alguém naquele carnaval não curtiu. Do alto da varanda da Fundição Progresso, uma mangueira de incêndio foi ligada e apontada para os foliões que acompanhavam um bloco passando por ali. "VAMUREFRESCÁUCALÔMINHAGENTI!", dizia o bombeiro. Pois o celular enfureceu-se com o banho inesperado e pôs-se a vibrar loucamente. Mesmo tirando do vibracall, o danado não parava de tremer. Cheguei a desligar, e mesmo assim ele insistia no seu "Bzzzzzz", àquela altura já irritante. E desesperador. Estragar aparelhos eletrônicos dá um certo pânico. É como machucar um encarcerado e esperar a indignação dos companheiros se transformar num motim. Fiquei com medo do liquidificador por um bom tempo, até tratei de tirá-lo de perto da geladeira, só por precaução.
Pois então, na própria segunda-feira de cinzas, fui na loja e comprei outro igual. O preço subira um bocado (desembolsei 99 reais desta vez), mas a macheza do modelo foi mantida. Durante quase dois anos, o pequeno negro ogro resistiu bravamente a diversas quedas, chuvas, marretadas, incêndios e permaneceu fiel comigo mesmo após alguns assaltos. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.
Por causa de todo esse envolvimento e companheirismo, fico triste ao anunciar que esse último bastião da tecnologia casca-grossa sucumbiu na madrugada de ontem. É, Ele morreu. Vibrou incessantemente até cair da mesa e espatifar-se, fazendo a tela se soltar do resto do aparelho e definitivamente partir desta para melhor. É um daqueles fatalismos tristes, um em um milhão, que só acontecem em horas inusitadas. Ozzy Osbourne bebeu mais vodka do que toda a população da Rússia junta, mais drogas que cinco Woodstocks juntos, mas nunca correu risco de morte até cair de quadriciclo. Chato, né?

Por detrás dessa aparência brucutu há um bom coração.
Mas logo me alegro, quando penso que terei uma nova vida pela frente. Não terei a mínima pressa em comprar outro novo, quero curtir novamente a sensação de estar sem celular. Depois conto para vocês como é. Beijosmeliga. Ou não.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
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