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domingo, 7 de março de 2010

Lapa em 3 tempos

Aconteceu no entardecer, quando eu esperava um ônibus na rua do Riachuelo. Como minha camisa tinha uma estampa do Seu Madruga, um hippie de dreads e caminhada mansa atravessa a rua de braços pro alto, num cumprimento bastante efusivo.

- Seeeeeeumadruuugaaaaaa!!!
- Coéééééééééé! - e braços pra cima. Fazer o quê? Eu respondo efusividade com efusividade. Será que essa palavra existe mesmo?
- Aíííí se liga só no artesanato do hippie aí dá uma forcinha brother saca só o trabalho...

E já foi botando o mostruário na minha mão. Era um cano envolto num pano, cheio de pulseiras penduradas. As pulseiras eram bonitas mesmo, todas trabalhadas em palha, conchas e contas coloridas.

- Essa palha aí eu colhi lá na Costa do Marfim. Saca, Costa do Marfim?
- África, né, bicho?
- Ééééé... Seu Madruga saca das parada heh
- Cara, você viaja um bocado então, né? Foi na África só pra pegar palha...
- Sóó... eu viajo, bicho. E não peguei só palha não! Essas conchas são de lá também.
- Irado, hein...
- Ih, olha lá quem vem chegando! Á lá!, é o meu amigo Calvin Klein, grande estilista!

E apontou pra rua, de onde vinha outro hippie de dreads, só que mais alto e magricelo, atravessando. Cigarro na mão e nenhum mostruário de artesanatos pendurado, só uma mochila e alguma sujeira.

- Caraca, Calvin Klein em pessoa! - exclamei, apertando sua mão.
- É, é
- E aí, Madruga? Escolhe uma parada aê.
- Quanto queres na pulseira?
- É três, mas faço duas por cinco pra você. Aí tu fica com uma e leva outra pro teu amor.

Como eu não tinha amor nenhum pra presentear e realmente vi bondade no coração daqueles hippies, levei uma pulseira por quatro reais. O fato de eu só ter notas de dois no bolso também ajudou.

- Ôôô valeu velho que Oxalá te abençoe muito obrigado por ajudar o hippie aí valeu.

Aí eles foram embora e o ônibus passou. Fiz sinal e também fui embora.

...

Essa aconteceu de madrugada, num outro dia, também na rua do Riachuelo. Quando voltava pra casa, um rapaz mirrado e mau-encarado se emparelhou comigo e foi logo ameaçando.

- Aí vai passando o aparelho aí que tu perdeu mermão vai passando logo aí porque eu tô carregado, tô carregado e se tu não passá o aparelho eu te dou um tirão tá ligado
- Ih, calminha aí, cara. Vai se acalmando que tu veio assaltar o cara errado. Deixa eu te mostrar ó - e botei os bolsos pra fora - não tem celular não, acabei de voltar de Botafogo, fui assaltado lá, só tenho esses trocados.

Realmente, eu vinha de Botafogo, mas não havia sido assaltado coisíssima nenhuma. Meu dinheiro fora quase todo gasto em cervejas e aipins e o celular estava em lugar estratégico. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.

- Porra, qual foi branquelo? Passa o aparelho aí porra senão eu te dou um tirão na cara cumpádi! Na cara tá ligado!
- Calminha aí, meu chapa. Tô dizendo, só tenho esses trocados, cara. Eh, vamos ficar na paz, esse negócio de dar tirão não tá com nada. Violência não. Chega aí, eu te pago uma cerveja, vamos ficar na paz.

Não sei se foi porque vi que o cara não tinha arma nenhuma, ou se foi a famosa coragem que os bêbados ganham, mas atravessei a rua e pedi duas cervejas no depósito de bebidas. Dei uma lata pra ele, junto com o restante dos trocados que tinha o bolso e, antes mesmo de eu abrir a minha, o meliante frustrado foi embora mamando a dele, extremamente irritado, resmungando contra Deus e o mundo.

Quando o perigo passou, levei a mão ao peito, que estava coçando. Era meu cordão de São Jerônimo Xangô dando bronca.

- Eu tenho que te livrar de cada confusão em que você se mete....

...

Essa outra é do Carnaval. Estava novamente eu no ponto de ônibus quando um sujeito põe sua cabeça para fora do coletivo e despeja quase todo seu conteúdo gástrico no meio-fio. Digo "quase" porque tinha algo mais naquele regurgito que chamou atenção da galera. Se fosse mais um simples pobre coitado cuspindo as entranhas enxarcadas de álcool, tudo bem. É Carnaval, afinal. Mas o sujeito vomitou DE DENTES CERRADOS. Sem sacanagem. Ao terminar sua obra prima, ele reparou nos olhares que atraiu e não se fez de rogado. Engoliu, enxugou a boca na camisa mesmo e pôs-se a explicar:

- A cerveja vai, mas o camarão fica.

O ônibus seguiu seu rumo e eu nunca mais vi o sujeito, mas eu nunca esqueci sua vívida lição. Esse cara simplesmente virou o meu herói.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Branda Liberdade

O ano era 2008, a época era o carnaval, estávamos eu e meu companheiro Motorola. Embora comigo havia apenas seis meses, o pequeno conquistara meu coração à primeira vista. Tosco, simples e - o melhor - o mais barato da loja, eu via nele tudo que sempre sonhei num celular: um telefone bronco. Sua pele monocolor de aço siderúrgico deixava claro que o pequeno ogro estava ali com o único intuito de fazer ligações. Com orgulho Graham Bell apreciaria minha compra. Quem não apreciaria ter o privilégio de ouvir a voz dos amigos queridos à qualquer hora, em qualquer alguns lugares pela bagatela de 89 reais?

Aparentemente, alguém naquele carnaval não curtiu. Do alto da varanda da Fundição Progresso, uma mangueira de incêndio foi ligada e apontada para os foliões que acompanhavam um bloco passando por ali. "VAMUREFRESCÁUCALÔMINHAGENTI!", dizia o bombeiro. Pois o celular enfureceu-se com o banho inesperado e pôs-se a vibrar loucamente. Mesmo tirando do vibracall, o danado não parava de tremer. Cheguei a desligar, e mesmo assim ele insistia no seu "Bzzzzzz", àquela altura já irritante. E desesperador. Estragar aparelhos eletrônicos dá um certo pânico. É como machucar um encarcerado e esperar a indignação dos companheiros se transformar num motim. Fiquei com medo do liquidificador por um bom tempo, até tratei de tirá-lo de perto da geladeira, só por precaução.

Pois então, na própria segunda-feira de cinzas, fui na loja e comprei outro igual. O preço subira um bocado (desembolsei 99 reais desta vez), mas a macheza do modelo foi mantida. Durante quase dois anos, o pequeno negro ogro resistiu bravamente a diversas quedas, chuvas, marretadas, incêndios e permaneceu fiel comigo mesmo após alguns assaltos. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.

Por causa de todo esse envolvimento e companheirismo, fico triste ao anunciar que esse último bastião da tecnologia casca-grossa sucumbiu na madrugada de ontem. É, Ele morreu. Vibrou incessantemente até cair da mesa e espatifar-se, fazendo a tela se soltar do resto do aparelho e definitivamente partir desta para melhor. É um daqueles fatalismos tristes, um em um milhão, que só acontecem em horas inusitadas. Ozzy Osbourne bebeu mais vodka do que toda a população da Rússia junta, mais drogas que cinco Woodstocks juntos, mas nunca correu risco de morte até cair de quadriciclo. Chato, né?


Por detrás dessa aparência brucutu há um bom coração.

Mas logo me alegro, quando penso que terei uma nova vida pela frente. Não terei a mínima pressa em comprar outro novo, quero curtir novamente a sensação de estar sem celular. Depois conto para vocês como é. Beijosmeliga. Ou não.