sábado, 16 de janeiro de 2010

Branda Liberdade

O ano era 2008, a época era o carnaval, estávamos eu e meu companheiro Motorola. Embora comigo havia apenas seis meses, o pequeno conquistara meu coração à primeira vista. Tosco, simples e - o melhor - o mais barato da loja, eu via nele tudo que sempre sonhei num celular: um telefone bronco. Sua pele monocolor de aço siderúrgico deixava claro que o pequeno ogro estava ali com o único intuito de fazer ligações. Com orgulho Graham Bell apreciaria minha compra. Quem não apreciaria ter o privilégio de ouvir a voz dos amigos queridos à qualquer hora, em qualquer alguns lugares pela bagatela de 89 reais?

Aparentemente, alguém naquele carnaval não curtiu. Do alto da varanda da Fundição Progresso, uma mangueira de incêndio foi ligada e apontada para os foliões que acompanhavam um bloco passando por ali. "VAMUREFRESCÁUCALÔMINHAGENTI!", dizia o bombeiro. Pois o celular enfureceu-se com o banho inesperado e pôs-se a vibrar loucamente. Mesmo tirando do vibracall, o danado não parava de tremer. Cheguei a desligar, e mesmo assim ele insistia no seu "Bzzzzzz", àquela altura já irritante. E desesperador. Estragar aparelhos eletrônicos dá um certo pânico. É como machucar um encarcerado e esperar a indignação dos companheiros se transformar num motim. Fiquei com medo do liquidificador por um bom tempo, até tratei de tirá-lo de perto da geladeira, só por precaução.

Pois então, na própria segunda-feira de cinzas, fui na loja e comprei outro igual. O preço subira um bocado (desembolsei 99 reais desta vez), mas a macheza do modelo foi mantida. Durante quase dois anos, o pequeno negro ogro resistiu bravamente a diversas quedas, chuvas, marretadas, incêndios e permaneceu fiel comigo mesmo após alguns assaltos. Bendito seja o inventor do celular com flip, idealisador de uma tecnologia que permite ser pendurada em barras de cuecas, longe da vista de meliantes.

Por causa de todo esse envolvimento e companheirismo, fico triste ao anunciar que esse último bastião da tecnologia casca-grossa sucumbiu na madrugada de ontem. É, Ele morreu. Vibrou incessantemente até cair da mesa e espatifar-se, fazendo a tela se soltar do resto do aparelho e definitivamente partir desta para melhor. É um daqueles fatalismos tristes, um em um milhão, que só acontecem em horas inusitadas. Ozzy Osbourne bebeu mais vodka do que toda a população da Rússia junta, mais drogas que cinco Woodstocks juntos, mas nunca correu risco de morte até cair de quadriciclo. Chato, né?


Por detrás dessa aparência brucutu há um bom coração.

Mas logo me alegro, quando penso que terei uma nova vida pela frente. Não terei a mínima pressa em comprar outro novo, quero curtir novamente a sensação de estar sem celular. Depois conto para vocês como é. Beijosmeliga. Ou não.

domingo, 15 de novembro de 2009

Desabafo - Onde está meu Rock'n Roll?

Capital Inicial era uma banda boa. O Rappa não tocava junto com Mr. Catra. Cazuza ainda estava vivo. Cássia Eller ainda estava viva. O Rock in Rio ainda fazia sentido. Não havia politicamente correto. A vaidade não tinha subido completamente à cabeça, ainda se tinha amor à musica. Jazzistas e bluezeiros de formação tocavam uma nova música ensurdecedora. Ainda se tinha a viva nessecidade necessidade de criar, não importa o que acontecesse. Artistas eram artistas mesmo, não tinha essa coisa vazia de se fazer de atormentado.

No dia em que tudo isso deixou de existir, o rock morreu. Se não morreu, anda bem solitário, cheirando a mofo, ainda mais blue do que quando nasceu. E veja bem, não estou falando da solidãozinha dessas bandas modernétes, com meninës estilozinhos num palco azul escuro, se fazendo de vampirinhos neo-modernos. Isso não é rock. Rock é vigor, é essa coisa de ter o mundo nas mãos, só porque teu baixo tem graves poderosíssimos, e essas baquetas estão acordando os deuses, e essa guitarra é a liberdade em forma de trovão. Cadê isso nas bandas de hoje?

E não acredito, de verdade, que eu seja a única alma viva revoltada com os rumos da música e que ainda acredite na música, apesar dela estar meio podre. Não é possível todo mundo achar normal meninos brancos de classe média cantarem música "de ghetto, yo!", idolatrarem idiotas que tratam as mulheres como uns pedaços de carne num filme pornô barato ou terem que estar com muito álcool na cabeça pra poderem achar uma balada legal. Pois é, tem gente se "badala" num lugar onde esse tipo de música toca a noite inteira num volume alto pra cacete.

Não é mesmo possível que só eu tenha saudades das coisas que enumerei no primeiro parágrafo. Não pode ser possível que mais ninguém queira transformar nossa realidade musical. Não aceitarei me apegar ao passado assim à toa. Não aceitarei virar bolor. Pedra rolando não cria limo.



...

P.S.:Porra, eu tenho um sério problema com a palavra necessidade. Nunca acerto de primeira.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Keep On Tryin'

Os hippies têm a razão. Os hippies e os loucos. Se algo não é feito com paz, amor e entendimento, esse algo não é humano. E se não é humano, não faz bem nenhum. Não é humano a falta de amor, nem a falta de respeito, nem a de boa vontade para entender o outro.

A agressividade não é o caminho para resolver problemas, muito menos uma boa resposta a outro ato raivoso. Se lembra que Jesus falou para oferecer a outra face, quando lhe derem um tapa? Não é uma questão de passividade, de "silêncio dos inocentes" nem de viadagem. O que ele realmente quis dizer foi algo do tipo "Podem me bater a vontade, seus merdas. Esses petelecos que vocês chamam de chicotadas nem fazem cócegas. A paz divina é eterna e é o único caminho. Vocês não vão conseguir mover uma palha sequer se continuarem com essa babaquice", mas com metáforas tudo fica charmoso como o pôr-do-sol alaranjado trazendo o gosto de mato à boca clara, e nessa um monte de gente não entendeu.

Somos humanos, antes de mais nada, não somos animais de sangue frio. Magoamos os outros com os nossos erros e, sem querer, a raiva aparece de rompante, tenta ferver o sangue, subir à cabeça e nos empurrar a coisas estúpidas, na melhor das hipóteses. Só que é nessa hora, mais que nunca, que devemos lembrar de três coisas: que o nosso direito acaba onde termina o do outro; que raiva é loucura passageira e; que erros são resultados da inexperiência.

Deixar de lado a mágoa e a vingança. Já cheguei à conclusão de que quem sacaneia os outros já tem uma vida muito medíocre. Não dá pra perder precioso tempo e valiosa saúde tentanto piorá-la, desgraçando uma pessoa desgraçada. O que fazer com a energia ruim da raiva? Ora, se nada se perde, nada se cria e tudo se transforma, transformemos a raiva em boa vontade, em energia criativa, qualquer coisa que não machuque outros seres humanos. Olho por olho e o mundo todo acabará cego.

Paz, amor e entendimento, um bom estilo de vida. Não precisa ser hippie ou usar alucinógenos para acreditar nisso. Basta ter boa vontade e fé no futuro - o passado passou e o presente não nos pertence. Fazer da queda um novo passo de dança. Perdoar a queda do outro, perdoar a si próprio. Dançar junto. A compreensão é o único caminho para a paz.

Keep on Truckin'

domingo, 11 de outubro de 2009

Cultura Não-Inútil

Depois de muito aprender, percebi
Eu não sei o que todos sabem
E o que eu sei ninguém sabe

Afinal, tudo que aprendi até aqui
É como ser eu, humano.
Travessia.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vivendo com Uriah Heep

Uma pequena lista com as coisas que aprendi um dia e o Uriah Heep não me deixa esquecer. Baseado numa história real que podia ter sido mais do que foi.


- Não é necessário ser um virtuose em seu instrumento. Se você souber fazer canções lindas e marcantes com simplicidade, faça-o.

- Por mais lindas e marcantes que sejam suas criações, sempre há o risco de estar à sombra de um virtuose.

- A imprensa é traiçoeira e pode atrasar sua vida um bocado. Não importa se o público te ama demais, se a imprensa não vai com a tua cara, você terá direito a apenas um parágrafo curto na bíblia do Rock.

- Apesar de haver gente contra, continue a trabalhar. O tempo corrigirá injustiças se você não desistir de trabalhar com competência.

- Dê tudo de si no palco, mas divirta-se.


- Por mais jovem que seja, você pode morrer a qualquer momento - eletrocutado aos 27, como Gary Thain, ou do coração aos 38, como David Byron.

- Ao lidar com as pessoas que ama, jogue sempre com todas as cartas na mesa. Assim como você, elas podem morrer a qualquer momento. E aí, campeão, como vais lidar com as coisas que nunca foram ditas?

- Nunca se esqueça de descansar, por mais divertido que seu trabalho seja.



- Se você não tem sua saúde plena, você não tem nada.

- Nunca perca contato com as pessoas com as quais você tem uma química quase divina. Elas sempre tornarão seu trabalho divertido.

- Ninguém é facilmente substituível.

- Nunca se esqueça que a juventude acaba, mas a vida continua. Amadureça, reinvente-se e deixe bem claro (para si mesmo, inclusive!) que os anos 70 não voltam.


- Rock'n Roll rejuvenece.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enem, Três Fábulas Modernas

Acho desnecessário, mas em tempos de politicamente correto preciso lembrar: todos os nomes, personagens e situações desse post são fictícios e criados por este que vos escreve. Em caso do prezado leitor encontrar semelhanças palpáveis com a realidade, aconselho fortemente uma reavaliação de conduta e/ou de companhias.

Ou não. Lembre-se, esse texto é uma fábula, escrita por um devaneiador ocioso que ainda tem espinhas na cara e não tem a menor pretensão de salvar o mundo, conscientizar o povo ou coisa do tipo.

...

O pobre diabo revirava-se na cama do apartamento vazio. Pobre diabo é, na verdade, maneira de dizer. Um sujeito que à meia noite prepara um bule de café com certeza está procurando sarna pra se coçar. Alta madrugada, o infeliz já agitado de tanta cafeína se agita ainda mais na ânsia de querer dormir. Resolve levantar, dá um passeio pela casa, vai até a varanda, precisa tomar um ar fresco. Ar fresco, aliás, é um mimo trazido pela madrugada paulista - e ninguém mais.

Uma coisa leva a outra, a agitação o faz pensar um monte de besteiras. Começa a lembrar sua vida ordinária, de trás pra frente. Beco sem saída, divórcio, falência iminente, isolamento, pretensão, tumulto no casamento, exageros, vaidade, fraqueza, tudo isso depois que uma ex de adolescência tinha se suicidado. Ah, Laurinha, se você ainda estivesse aqui tudo seria mais fácil. Por que nosso romance desandou? Por que deixamos de lado aquele amor perfeito? Quando começou a pensar que tinha matado a pobre Laura de desgosto, afastou-a, se pôs a pensar em outra coisa. Não queria entrar em surto de novo. Tentou serenizar-se e chegou à conclusão de que só sendo criança de novo iria ser feliz.

- rrgnnnhhgg... Alô?
- Oi, é do açougue?
- rnnmmm... Não.
- Então por que eu estou falando com uma vaca?

Desligou e riu forçosamente. Forçou uns quarenta segundos até sentir que o trote do açougue perdeu completamente a graça que nunca teve. Precisaria aloprar mais para satisfazer sua criancice. Como moleque, resolveu tentar extrapolar seus limites só pra provar. Esqueceu conseqüências, mandou sua maturidade ao raio que o parta e foi brincar com coisa séria. Raivinha do mundo. Aproveitou que a mãe não estava olhando e discou. Dois tu-tu-tu depois, alguém atende com o ar ocupado que só os adultos têm e ele não queria ter.

- J.J. Blóide*, editor chefe, boa noite.

Que Deus conserve sempre a ignorância nas crianças e tire a criancice dos ignorantes...

...

O pobre diabo (esse sim, merece o título) estava emputecido - perdoem-me, mas não há outra palavra. Saiu pelas ruas esbravejando, amaldiçoando, xingando, tudo junto. Às vezes chegava até a dar socos no ar, tamanha era sua raiva. Dentre tantos atos secretos pra revogar, revogaram logo aquele que lhe dava o emprego. Não via sentido em pegá-lo para bode expiatório, tampouco via sentido quando a imprensa resolveu jogar merda no ventilador. Todo seu meticuloso plano de subir na vida fora por água abaixo. Pior, agora sentia um vazio dentro de si. Não podia mais entrar nos prédios do planalto central com aquele ar de falsa humildade, não podia mais influenciar ninguém, não podia mais pedir favor a ninguém. Ou podia?

- Alô, Oliveira. Lembra de mim?
- Padilha! Claro que sim! Estava até pensando em te ligar mesmo, rapaz. É sobre aquele lance que você me adiantou, lembra? Muito obrigado. Mesmo. Eu não poderia sem a sua ajuda. Você foi um grande rapaz, conhece as pessoas certas, hein. Quero te retribuir, mas nem sei como.
- Que isso, não há de que.
- Fiquei sabendo o que fizeram contigo. Achei uma puta injustiça isso. Logo você? Sacanagem. Mas não fique assim, logo aparece algo e você volta. Olha...

Nem quis ouvir, nem quis voltar. Estava muito furioso mesmo. Raiva, orgulho ferido, ingratidão, injustiça, falsidade, tudo o atingia e se misturava dentro dele. O próprio Oliveira estava sendo um porco falso naquele exato momento.

- Você gostou mesmo do que eu fiz, Oliveira?
- Ora, se gostei!
- Então acho que sei como você pode me retribuir. O meu filho sonha com a universidade, sabe...

Oliveira lhe repassou as provas do vestibular, na íntegra e na surdina. Afinal, achou o pedido do Padilha uma mixaria e nem se incomodou em retribuir com essa esmola. Na verdade, nem entendeu o pedido, poderia colocá-lo na sala de aula num estalo, pra que vestibular?

Três dias depois, entendeu. Soube que Padilha ligou para o maior jornal do país pedindo dinheiro ou então iria faltar ventilador pra tanta merda.

...

Barbixa era quase um mito. Simpático, inteligente, charmoso, querido por todos na faculdade, brilhante aluno, pegador invejável. Era presidente do grêmio estudantil há anos e por isso tinha certos privilégios, como a chave do diretório acadêmico, cortesias etílicas no barzinho do campus e uma certa "imunidade administrativa", cedidas a ele com grande prazer. Só tinha um único defeito, coitado, sua vaidade freqüentemente lhe subia à cabeça. Conta-se que, certa noite, quis impressionar algumas calourinhas e, para isso, organizou, com a ajuda de um colega, uma "festinha" particular para elas no diretório acadêmico durante a noite.

Lá pelas tantas, depois de muito álcool e alguma maconha, o ego de Barbixa estava à mil.

- ...e eu vou provar pra vocês como o Brasil, enquanto nação, não tem soberania nem sobre seu próprio sistema! São pretensiosos os que dizem que pensam com a cabeça. O calor tropical, resultado das irradiações cósmicas racionais, não pode ser controlado pelos seres terrestres! Eu vou começar a construir uma revolução aqui, agora. Basta ligar pros vermes da mídia controladora fazendo denúncias vazias de uma suposta fraude e ameaçando uma vaga extorsão. A classe média submissa vai se apavorar. De quebra, a burguesia vai atrasar seus planos de lavagem cerebral em massa.

Aí ligou prum jornal de grande circulação e lançou a revolução mais medíocre de todos os tempos. Não me atrevo a dizer que foi de todo infrutífera: a classe média se apavorou, a "burguesia" atrasou levemente seus planos e as calourinhas, impressionadíssimas e bêbadas, realizaram todos os desejos de Barbixa e seu colega naquela noite.

Que Deus perdoe todos aqueles que se impressionam por qualquer merda e todos aqueles que fazem qualquer merda para impressionar.

...

* Personagem de Arnaldo Branco.